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Infectologista do Hospital Estadual fala sobre a nova variante, Ômicron

[Entrevista: Reginaldo Viana e Janice Sato. Edição: Elaine de Souza e Ronaldo Diegoli| atualizado em 16/12/2021, ACI-Famesp]

[Banco de imagem free | Pixabay ]

OMS alerta: pandemia ainda não acabou. Médico infectologista do HEB, Taylor Endrigo
Toscano Olivo, analisa cenário com nova variante e reforça importância de vacinação


[Entrevista: Reginaldo Viana e Janice Sato.
Edição: Elaine de Souza e Ronaldo Diegoli |
atualizado em 16/12/2021, ACI-Famesp]


“A principal questão é que a nova variante [Ômicron do coronavírus] vem para dizer que não acabou nada ainda”. A declaração é da diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mariângela Simão, em entrevista à CNN no último dia 15 de dezembro – um ano e nove meses depois do anúncio no Brasil da pandemia do coronavírus.

Para a OMS, o momento é de aguardar mais dados sobre a Ômicron e tornar a vacinação de quem ainda não foi vacinado uma prioridade global. A variante já apresenta registros em 77 países, alastrando-se em velocidade sem precedentes. Para Simão, apesar da “percepção pública de que ela [Ômicron] seja menos severa com casos mais leves, não se pode dizer isso com certeza”, até porque os resultados dos primeiros estudos da cepa trazem análises ainda preliminares de como a mutação deve se comportar.

O que já se sabe, com certeza, é que a variante carrega um alto número de mutações. E uma das indagações principais é se ela tem capacidade de escapar das vacinas, como pontua o médico infectologista do Hospital Estadual de Bauru, Taylor Endrigo Toscano Olivo. Estudos preliminares apontam que a mutação do vírus contorna a eficácia dos imunizantes já disponíveis no mundo contra as demais variantes.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil já possui [até dia 15/12] 19 casos confirmados no estado de São Paulo, no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul e em Goiás. E conforme noticiado pela Agência Brasil, em 15/12, há ainda, segundo a pasta, sete casos em investigação em Goiás (2) e Minas Gerais (5).

[foto: Samantha Ciuffa / arquivo digital JC]

A equipe da Assessoria de Comunicação e Imprensa (ACI) Famesp conversou com o especialista a respeito dessa variante e de seus possíveis impactos. Acompanhe.

ACI – A variante Ômicron e vacinas
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Taylor Endrigo Toscano Olivo - A gente tem o aparecimento de uma nova cepa, como aconteceu com as outras, Alfa, Delta, a Gama, e a grande preocupação em relação ao aparecimento de uma nova variante é se ela pode nesse momento escapar das vacinas, porque você tem uma população já bastante vacinada, claro que com diferenças regionais, mas já vacinada, e o quanto ela pode levar de gravidade.
Então, quando ela [Ômicron] apareceu os relatos foram de doença leve e a gente tinha uma quantidade muito pequena. E aí faltariam informações no sentido de utilizar o soro desses pacientes para ver se conseguia neutralizar ou não; foi uma variante que apresentou um monte de mutação numa proteína dela, que é a proteína que a gente chama de spike – que é uma proteína de introdução que o vírus usa para entrar na célula – se isso poderia fazer ela escapar das defesas.
A gente tem claro um movimento muito diferente na Europa, que são as diferenças regionais em relação à vacinação também. O que se viu é que mesmo aqueles países com mais de 80% de índice de vacinação, elas não tiveram uma elevação tão grande na gravidade, porém a gente teve um aumento, sim, do número de infectados. Então, parece que a variante poderia escapar um pouco da vacina, pelo menos das doses que foram feitas, mas não levava à gravidade desde que você tivesse uma quantidade de vacinados num coeficiente adequado.      

ACI - E qual será o impacto da nova variante, a Ômicron, nos sistemas de saúde?
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Taylor Endrigo Toscano Olivo - A gente não sabe o impacto e há quanto tempo ela está circulando na Europa. Tanto que, depois que houve o isolamento da cepa lá na África do Sul, a Holanda mostrou que já tinha a cepa circulando no país, ou seja, onde ela surgiu a gente não sabe, mas quem descobriu a cepa foram os pesquisadores da África do Sul. Mas o impacto real a gente está vendo no número de casos novos. Achamos que em termos de impacto de saúde, em termos de leito, talvez não impacte, mas não sabemos se haverá uma diferenciação de pacientes mais velhos, pacientes mais novos, que tenham algum problema de saúde, então pode ser que tenhamos algum impacto, mas muito menor do que aconteceu com a variante Delta.

ACI – Considerando a nova cepa, como fica a relação entre as vacinas existentes, as doses de reforço e possíveis eventos adversos?
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Taylor Endrigo Toscano Olivo -
Hoje, a vacina que a gente tem depende de múltiplas doses para conferir imunidade. Agora com a nova cepa a gente vai ter necessidade de uma terceira dose realmente para a maioria delas. É claro que a gente está esperando em relação às outras vacinas. A Pfizer acabou de soltar, mas as outras, como a AstraZeneca e a própria Coronavac, ainda não tem nenhum dado referente a isso. Mas somente nesse momento com a vacinação, além de seguir as medidas de controle, uso de máscara em ambientes fechados, evitar aglomeração, todas as questões já conhecidas vão ser importante em relação a isso. É claro que existe o temor: será que múltiplas doses vão me fazer mal? Existe já publicação em que o número de eventos adversos foi muito baixo comparado à letalidade da própria Covid-19. Em relação também à própria vacina da Pfizer, que foi quem soltou a pesquisa, foi a que menos teve eventos adversos. Se eu não me engano, dados liberados pelo boletim epidemiológico VigiVac da FioCruz, a gente teve oito óbitos somente [falar óbitos somente às vezes é um impacto, né], mas somente oito óbitos nesse montante intimamente ligado a toda essa vacinação que a gente fez no Brasil. Então, é muito pouco, realmente é muito pouco, perto dos 600 mil óbitos que a gente teve pela Covid-19. Então, a vacinação continua sendo a medida mais eficaz para isso.
Um dado adicional: Segundo esse mesmo boletim VigiVac FioCruz, as vacinas reduziram em 257 vezes o risco de internação por Covid-19 grave e crítico e em 57 vezes o risco de morte por Covid-19.      

ACI - No estágio em que estamos da pandemia de Covid-19, quais sãos os cuidados sanitários que devemos manter e o que podemos deixar de fazer?
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Taylor Endrigo Toscano Olivo -
A Pandemia não se encerrou. Acabamos de ver o surgimento de uma nova cepa, mais virulenta, mais grave. A gente tem aquela ansiedade de parar de usar máscara, de poder estar com as pessoas novamente, acho que tudo é bom senso. Hoje tivemos bastante ganho em relação ao início da pandemia, de poder fazer uma atividade física em um local aberto sem máscara, desde que você esteja distante das outras pessoas, então, essas coisas a gente pode ter. Muito se fala da questão de cercear a liberdade, mas eu acredito que isso é pensar no coletivo. A coletividade está acima do individual sempre, para isso que existem as leis também. Então, a questão da vacinação é um senso coletivo e de liberdade. As pessoas precisam entender isso.